Estudos tradicionais feitos nos Estados Unidos mostram que o ensino de línguas e matemática na pré-escola influenciam o rendimento nessas duas disciplinas durante o desenvolvimento. Este ano um estudo semelhante foi realizado no Reino Unido em que participaram mais de 600 crianças que foram avaliadas aos três anos de idade e depois aos onze anos de idade. As crianças que tiveram acesso a uma maior aprendizagem de línguas e matemática na idade pré-escolar tiveram os melhores resultados aos onze anos.
Um motivo interessante para consideramos as disciplinas de línguas e matemática como fundamentais é que ninguém nasce sabendo uma língua específica e ninguém nasce sabendo matemática, e ao contrário das outras disciplinas, essas duas não dependem apenas de conhecimento.
Neurocientistas apontam que para aprendizagem de línguas e matemática é preciso que haja uma “reciclagem neural”. Isso significa que o cérebro modifica a própria estrutura neural e modo de funcionar ao “instalar” a matemática e as línguas. O termo indica que certas áreas neurais que não foram desenvolvidas para invenções culturais como a matemática e escrita precisam se alterar para incorporar as novidades. Sabemos que quanto nova a criança, há mais plasticidade cerebral e maior facilidade para aprender coisas diferentes. Detalhes que exigem plasticidade, como aprender a pronuncia exata de uma língua nova, são melhores aprendidos na idade pré-escolar. Logo, não é difícil imaginar por que é tão importante que a reciclagem neural para matemática e línguas comece a ocorrer nessa idade.
Os estudos citados apontam evidências e razões teóricas para crermos na importância de ensinar matemática e português para crianças. Mas... como? Vou deixar a ciência um pouco de lado e dar minha sugestão. Acredito que os pais tem um papel fundamental nesta história, principalmente aqui no Brasil, onde estamos apenas aprendendo o que é uma pré-escola. Não é legal forçar as crianças a fazerem atividades matemáticas ou de línguas. Nenhum Pai ou Mãe quer ver seu filho com as dificuldades da escola tradicional desde pequenininho.
Muitas pessoas elogiam o João Felipe por saber ler, fazer adição e subtração. O que me faz feliz é que nunca o forcei a aprender nada, sempre quis que ele aprendesse, mas nunca precisei forçar. O ensino para essas crianças não pode ser um ensino à moda antiga. Em linhas gerais, o que tentei fazer com o João foi colocar letras e números em meio das brincadeiras que ele gostava. Ele, naturalmente, aprendeu a gostar das letras e dos números.
Ainda não consegui reunir informações científicas sobre as melhores formas de ensinar crianças em idade pré-escolar, mas minha sugestão essencial é: coloque números e letras nas brincadeiras que a criança goste e em seu dia a dia, desta forma há chance de que o interesse na aprendizagem permaneça.
A seguir vou exemplificar algumas brincadeiras que fiz com o João Felipe para introduzi-lo na matemática e no português:
Matemática:
Começamos contando degraus todas as vezes que subíamos escadas. Íamos aumentando os números e ao descer íamos diminuindo (detalhe que é preciso decorar o número de degraus para esta segunda etapa haha). A brincadeira foi ficando tão divertida e importante para ele, que começamos a parar um andar antes do nosso no elevador só para subir uma escada todo dia. Depois de aprender os números aumentando e descendo, começamos a pular degraus e fazer somas: 1 + 2 = 3, 3 + 2 = 5, 5 + 2 = 7 e assim por diante nos degraus.
No elevador foi semelhante, no nosso prédio temos um elevador para números pares e outro para impares. Logo, ele aprendeu a somar + 2 também com o elevador subindo e subtrair -2 com o elevador descendo. Eu sempre perguntava, por exemplo: 8 – 2 ? e ele via a resposta no elevador. Com o tempo ele começou a antecipar as respostas.
Para os números escritos começamos a enumerar paginas de desenhos e preenchendo livrinhos de atividade que ensinam números. Depois de tudo isso, comecei a desenhar com ele uma linha enumerada de 0 a 10. As vezes colocávamos a quantidade de bananas ou maçãs de acordo com a quantidade de números. Com a linha numérica no papel ele começou a conseguir a fazer somas e subtrações maiores (como +3, +4, ...) associando o espaço entre os números com a grandeza da soma. Essas somas e subtrações mais simples ele começou a fazer mentalmente, somas maiores ele conseguia fazer somente olhando na linha. Foi importante ir retirando essa linha após certo tempo, para que ele parasse de contar os números na hora de somar e usasse apenas uma imagem mental do espaço entre os números, e assim de forma intuitiva encontrar a resposta.
Hoje ele faz uso do Nintendo 3DS com jogos de operações matemáticas (3+3;5+4, 3-2 etc.). Liberamos vídeo game aos finais de semana, mas para esse tipo de atividade educativa ele pode usar às terças e quintas, isso faz com que ele fique motivado a aprender por conta própria (usando o vídeo game). Nos desenhos, tentei ensinar o conceito de dezena fazendo 10 quadrados e brincando de preencher bolinhas para saber quanto falta para chegar ao 10. Também tentei mostrar que o lugar dos números na soma não altera a resposta final (4+3 = 3 +4) repetindo e gozando do fato de que sempre saia a mesma resposta. Mas cansamos e paramos por aí, atualmente ele brinca de matemática mais sozinho no video game.
Leitura e Escrita:
O João começou a aprender as letras com desenhos. Coloquei uma letra no inicio da página e dizía o som dela para que ele sugerisse palavras que começavam com aquele som. Como havia muitas coisas que ele não conseguia desenhar, a brincadeira ficava divertida para ele, pois nós desenhávamos também. Para cada página uma letra, e repetíamos o som. Logo, para B, tínhamos “B (faz o som) – Bola”, “B – Balde”. Para D tínhamos “D (faz o som) D – Dedo”. Foi importante nesta etapa fazê-lo lembrar de coisas que ele já conhecia. A criança dificilmente saberá o que é mola, apesar de ser uma palavra simples. O que manteve o João interessado foi usar nomes de super heróis que ele gostava na brincadeira, esse não é o momento para se ensinar palavras novas, é bom focar no que a criança quer ver e desenhar, isso mantem o interesse para que aprenda as letras e os sons das mesmas.
Brincávamos muito de Google Images também. Ele queria ver algum super herói ou algum animal e eu digitava, já falando as sílabas. Ele prestava atenção na palavra e a recompensa era várias imagens. Aos poucos ele foi observando e aprendendo a ordem das letras nas palavras que ele mais gostava. Ele também foi fixando na memória as letras por causa do teclado. Foi interessante que ele começou a digitar sozinho por causa das sugestões que o Google oferece. Por exemplo, Quando digita “mac”, o Google já sugere macaco, isso acelerou a aprendizagem e aumentou a curiosidade. Com o tempo ele foi aprendendo a copiar as sugestões do Google e ver os animais e super heróis preferidos.
Depois de muito brincar de letras, o dia mais emocionante foi quando ele aprendeu a montar o som de sílabas. Estava no horário de ir para a cama e ele não queria dormir. Eu disse: ok, podemos ficar acordados mais um pouquinho se for para brincarmos de letras, veja. Eu escrevi sílabas simples no papel: BA, PA, GA, ME, MI, MU. Como ele sabia os sons das letras pelas outras brincadeiras, tentei fazer ele somar os sons: Som do B + A = BA, Som do G + A = Ga, e assim por diante. Tudo virou festa quando começamos a falar os sons mais estranhos e bobos que as sílabas formavam, não parávamos de rir. No primeiro dia que brincamos disso ele entendeu como formar e ler sílabas, pois morria de rir dos sons que estávamos falando. Desse dia para frente as brincadeiras com desenhos eram com palavras inteiras. Desenhava bola e escrevia “bola” (Coloquei bola como exemplo, mas use o que a criança mais se interessar). Continuamos com a escrita, agora mais desenvolvida, no Google Images também.
Como etapa final foi relevante perguntá-lo o que era que ele estava falando. No começo ele lia os sons, mas às vezes não associava com o significado da palavra. Então foi muito importante ir tentando o fazer associar o significado com o que lia. João foi tomando gosto pela coisa e agora quando menos esperamos aparece sentado sozinho lendo livrinhos.
Todas essas atividades levaram tempo, começamos quando ele tinha 2 anos e atualmente tem 4. Foi importante forçar risadas para o incentivar. Com incentivos (risadas, palmas, tons de voz diferenciados e expressões faciais) a criança passa a adorar as atividades. Ele começou a errar somas na matemática de propósito para eu brincar com ele e ele se divertir.
Com o tempo eu não precisei mais colocar números e letras no cotidiano e nas brincadeiras, ele começou a colocar no nosso por conta própria.
ps: O Sam aplicava em um final de semana e o resto do mês era minha responsabilidade. HAHAHA Beijos, Marina.
Com o tempo eu não precisei mais colocar números e letras no cotidiano e nas brincadeiras, ele começou a colocar no nosso por conta própria.
ps: O Sam aplicava em um final de semana e o resto do mês era minha responsabilidade. HAHAHA Beijos, Marina.