10 junho, 2014

O dia em que bati no meu filho


Há três anos atrás, em um dia da crise dos dois anos, o famoso terrible two, que João deu uma birra incontrolável. Ele não queria dormir e se debatia, gritava, chorava, me respondia. Como todos os dias desde que essa fase havia começado eu sentei, conversei, tentei acalmá-lo, o abracei e fiz tudo o que eu achei que poderia ter feito, foi então que cheguei ao que eu acreditava ser meu limite e dei um tapa no bumbum dele, uma palmada leve que nem chegou a estalar, mas que serviu pra assustá-lo e ele ver que a situação estava fora de controle. Ele me olhou com medo e interrompeu o choro, foi pra cama e ficou chorando baixinho até dormir, eu não o procurei e nem tentei conversar porque estava descontrolada e não conseguiria conversar racionalmente. No dia seguinte, ao acordar, ele conversou normalmente, mas ao tentar passar a mão no cabelo dele a reação foi automática: se esquivou. Foi uma ação rápida, ele achou que eu iria o agredir, e foi ali que eu vi o que tinha feito. Meu filho não me respeitava, ele tinha medo de mim. 
Eu apanhei e hoje não sou uma pessoa traumatizada, mas todas as vezes que apanhei jurava que faria diferente com meus filhos, mas naquele momento estava repetindo aquela ação, sempre questionei o motivo dos meus pais não conversarem e achar que resolveriam os problemas com as palmadas e ali estava eu, fazendo exatamente a mesma coisa. Onde é que eu estava errando? Errei no momento em que não me controlei, porque a palmada não é culpa do agredido e sim do agressor que não soube se controlar. Eu, adulta, com mais experiência e noção de mundo que aquele ser, não consegui me conter e tentei resolver um assunto com agressão. As crianças aprendem com exemplos e se apanham quando contrariam alguém, irão bater quando contrariadas. Era esse exemplo que queria dar pra ele? Eu não queria manter esse ciclo e dependia somente da minha boa vontade. 
Me assusta as pessoas possuírem um suposto direito de causar dor num filho, dor em uma criança que foi gerada com amor, que nos sacrificamos para cuidar e educar. Não bater é diferente de ser permissivo, educar dá trabalho e a palmada nada mais é que um recurso provisório de imposição de poder quando não se tem argumentos. A criança precisa ser corrigida com amor, ensinada com repeito e educada de forma a ser um ser humano decente que saiba respeitar o outro e suas limitações. 
É um exercício diário de auto-controle, porque há dias em que minha paciência vai embora e eu chego no meu limite, é nesse momento em que eu me abaixo e falo olhando nos olhos dele "Quando nós dois nos acalmarmos, iremos conversar.", vou pro banheiro e choro, grito com a toalha na boca e quando saio consigo ser racional e mostro a ele como é que resolvemos nossas inquietudes. 
Ele ganhou uma palmada e eu uma surra, porque foi naquele olhar de medo que eu vi que não era aquela mãe que eu queria ser e MUDEI. Foi quando decidi respeitar o corpo do meu filho que mudamos a nossa vida. Rompi o ciclo da dor e estou educando com amor. 

Um comentário:

  1. ô Marina...entendo sua posição, seu nervosismo e sua dor depois... ver nossos filhos com medo da gente deve ser a pior das sensações...saber que levantamos o braço pra eles também..pq é mesmo inconcebível, como você falou muito bem, dar palmadinha, mesmo que leve para coagir...É mesmo uma "educação" momentânea. Uma freada melhor dizendo..

    Fiz alguns posts sobre isso...e sei que mesmo não batendo ficamos nervosas demais..e o melhor é isso mesmo.. conversar depois..morder uma toalha...contar até 1000 em outro canto da casa... não há remédio melhor..
    Desde que a criança não se machuque sozinha, o mais sensato é sair de perto quando a barra está pesando...SOMOS HUMANAS!

    SIm, a paciencia tem hora que chega ao limite..mas quanto mais treinarmos a tranquilidade e a sabedoria do educar, a "calma budista", mais nos distanciamos de todas as intolerâncias...

    Mãe, pai, família, ser humano, tem o dever de se reciclar todos os dias...e isso faz parte do viver!

    Tranquilize seu coração e ame muito.. João te ama!

    ResponderExcluir