26 dezembro, 2014

Os roteiristas e o ativismo engasgado


Era uma vez um desserviço pra população chamado Tv aberta e ali existiam novelas que influenciavam na formação de opinião das pessoas. Essas novelas deveriam passar informações que ajudassem essa população já tão enganada por classes de profissionais anti éticos, mas não, elas reforçavam esse comportamento que tanto prejudica mulheres, crianças e as famílias desse país.
Eis que uma situação especial choca: as mulheres nessa tal de tv aberta não conseguem parir. A maioria dessas mulheres passam por cesáreas completamente desnecessárias e pseudo salvadoras, TODAS. As poucas que conseguem alcançar esse feito quase que inédito (parir) fazem cercadas de uma série de violência obstétrica ou de forma desumana. O que reforça a ideia da dor insuportável, da cesárea ser melhor para mãe e de que a mulher NUNCA é a protagonista do seu  parto e sim os médicos.


A realidade é que a cesárea é uma cirurgia que salva muitas vidas, quando bem indicada,  e deve ser feita em caso de necessidade, visto que apresenta mais riscos. No entanto o parto natural é sempre a melhor opção para gestantes de baixo risco. Mas por que essa tal de Tv aberta  insiste em mostrar casos de partos desnorteadores, desencorajar as mulheres e disseminar falsas evidências? Seria o mercado? Seria a cultura? Impossível saber. Fato é que todas as vezes em que uma cesárea salvadora ou um parto "frank" aparece nas telinhas muitas gestantes são desrespeitadas.

A lei do acompanhante (leia AQUI) quase nunca é seguida e as personagens são obrigadas a passar o trabalho de parto sozinhas, o que acontece em grande parte dos hospitais na vida real. E pasmem: uma lei federal.


Nas novelas há três opções de nascimento: cesárea, parto no banheiro do boteco/em casa com natimorto/e qualquer outra opção desastrosa e mortal e a última, não menos pior, parto normal hospitalar cercado de violência obstétrica e desrespeito para com a mulher, bebê e família. Vá me dizer que você já viu cenas assim em alguma novela? 







Há quem diga que existe uma ditadura do parto normal. Há quem diga que parto humanizado é coisa de uber model, há quem diga que as pessoas estão sendo forçadas a algo que não querem. Mas houve uma cena que retrata bem a realidade do sistema obstétrico brasileiro, na novela Império, onde a personagem Du chega na maternidade em trabalho de parto e é obrigada a ficar sozinha durante o trabalho de parto com médicos, familiares e palpiteiros de plantão a induzindo a uma cesárea desnecessária. É, essa é a nossa realidade. É assim que o alto índice de cesáreas é justificado. É assim que as mulheres são desencorajadas, é assim que acontece. E a dor de cotovelo dos roteiristas que continuam a perpetuar essas mentiras chega a doer, porque cada vez que uma mulher passa por algo ruim durante o parto, cada vez que uma mulher agenda uma cesárea por algum motivo irreal, cada vez que um bebê vai pra UTI por prematuridade iatrogênica um pouquinho de culpa existe em quem concordou em disseminar o medo, a culpa apita em cada um que dá audiência pra vilã da Tv aberta e um pouco de dor existe no coração de cada ativista do direito de escolha da mulher.

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