22 fevereiro, 2015

Da rotina rígida aos rituais


Acabo de sair do meu ritual de banho e sono diário com o Leo, meu caçula de quase 3 meses de idade, em que faço a  transição de um dia agitado para a hora de seu repouso.  O pequeno dorme sereno enquanto escrevo aqui. Cada dia aprendo observando sua personalidade e buscando atender seus anseios, necessidades. Aprendo a ser mais paciente, a viver cada momento de seu desenvolvimento e a não buscar por respostas imediatas, aparentemente mais fáceis.
Mas não foi sempre assim. Já acreditei em fórmulas mágicas, em rotinas rígidas para domar bebês, que podem até funcionar para alguns, mas nos privam de descobrir o melhor da maternidade: aprender q somos capazes de cuidar  das nossas crias e de ouvir nossos filhos. Rotinas que nos tiram o que há de melhor em qualquer relação onde o amor impera: a leveza da  espontaneidade.Já me vi a voltas com livros rosas e azuis, escrito por encantadoras  que prometiam me libertar de um suposto sofrimento ao criar minha primogênita. Livros que impunham regras para minha filha mais velha administrando seu sono, alimentação e horários. Controlando até seus pedidos por afeto, afeto este tão essencial ao desenvolvimento de qualquer ser humano sadio. Hoje, entendo que sofrimento  para mim e meus filhos é me afastar deles e não escutar os pedidos da minha intuição, que aflorou com o meu nascimento como mãe.
Hoje, não sigo a rotina rígida, criada pela especialista que ceifa o natural e belo na criação do meu filho e me poda o sentir e o seu pleno desenvolvimento físico e emocional. Hoje a palavra que me conduz é o respeito. E, do respeito e observação do pequeno e lindo ser que está confiado aos meus cuidados, surgiu também o respeito por mim mesma como mulher. A partir do momento que me libertei da rigidez da rotina, percebi que sou capaz, capaz de aprender com as experiências e crescer junto com meus filhos e a partir do que eles me mostram, requisitam. Basta saber ouvir e, de preferência, com os ouvidos do coração.  
Mais que as regras rígidas de uma rotina pré-estabelecida e imutável, alheias ao fato de que bebês são, em sua essência, seres em constante mutação,me servem muito mais os pequenos rituais que criei para mim e para os pequenos. São rituais que servem de conforto nas horas de tensão, para fazer a transição para a hora de dormir ou para avisar que alguma atividade diferente está por vir.A diferença primordial entre o ritual e a rotina, é que o ritual é criado para o bebê e para a mãe e não é algo estanque ao qual ambos tem q se adaptar. A exemplo, ao observar o choro noturno do meu bebê que sempre ocorria em um mesmo horário e se desenrolava mais ou menos de uma mesma forma, migrei o horário do banho que ele sempre gostou para um pouco antes da crise. Inventei uma sequência de ações para tornar isso um momento especial meu e dele e voilá: cessaram-se as horas de choro, pois aquele que era  o momento do ápice do meu cansaço e dele se tornou um momento de prazer, com direito a velas, óleo de lavanda e música relaxante. Também me dei ao luxo de criar um ritual só meu, para aqueles dias em que não estou bem ou que os cuidados com o bebê e a casa me massacraram. Para recobrar o foco e me dar um tempo, na primeira oportunidade que surge com uma soneca do caçula, paro tudo, esqueço os demais deveres, assento e vou tomar um chá e escutar música, poucos minutos assim e já me sinto muito melhor.
Assim, eu que entrei no mundo da maternidade tão crente em rotinas, que tive meu primeiro parto roubado por acreditar na necessidade dos protocolos de rotina médicos, reescrevo a cada dia minha história e dos meus filhos, aprendendo a observar nossas demandas como indivíduos e confiando na minha capacidade de cuidar. Quando a vida me deu uma segunda chance, fiz do meu segundo parto um ritual de passagem e isso refletiu na mãe que sou hoje para os meus dois filhos e no quanto me emponderei como mulher para a vida. Já acreditei na rotina, hoje, construo a vida da minha família com rituais.

Sabrina Mori, mãe da Nina há 5 anos e do Leo há quase 3 meses.

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