01 outubro, 2015

Auto crítica desde sempre x motivação real

Ser mãe é um processo delicado e dolorido, pois faz com que cada valor seja pensado e, se necessário, refeito. Eu e minha auto-estima brigamos diariamente. Falo 24 horas por dia para mulheres que elas devem se amar como são, se aceitar, que não existe um padrão a ser seguido. Mas meu interior não aceita isso e, acreditem, é muito difícil falar sobre esse assunto.
Na minha escola no pré primário eu nunca fui a "Rainha da pipoca", porque era sempre o mesmo estilo de garota que ganhava, as magras, de olhos claros e com rostinho de boneca. Eu era uma menina normal, apenas isso. Não consigo mensurar o que uma criança negra sentia ao participar de um concurso desse nível, visto que eu, branca, de cabelos cacheados e não crespos, já sofria por saber que aquele ano o prêmio não seria meu, por mais rifas que eu vendesse, por mais que eu rodasse o bairro, eu não seria a escolhida. Mas ao mesmo tempo eu descobri que precisava desenvolver minha criatividade, meu lado comunicativo e minha inteligência. Sendo assim cresci no meio das meninas populares, mas nunca era a menina bonita. Eu sempre fui a amiga dos meninos e das meninas, a que levava os recados e divertia a todos. Só que um dia começaram a gostar de mim pelos meus seios grandes (sério? eu queria tanto tirar porque minha coluna não aguentava mais.). E aí passei a ser um objeto valorizado, mas era isso o que eu queria, certo? Certo. Mas não, porque ser bonita e sexy tinha um custo, que eu não estava disposta a pagar. Passei a me auto boicotar, tentando voltar a ser só mais uma no meio de todo mundo, mas ao mesmo tempo por escrever e me comunicar bastante, várias pessoas se identificavam comigo e eu via que não estava sozinha. Eu nunca estive sozinha.
A maternidade chegou cedo e junto com ela as mudanças no corpo que finalmente tinha chegado ao ponto ideal para que a sociedade me aceitasse. Não era hora daquela barriga crescer, não era hora das estrias aparecerem, não podia estar acontecendo aquilo. 38 semanas de muitos cremes, óleos, hidratação e eis que surgem muitas estrias, uma diastase e uma mulher que nunca mais colocaria um biquini. Porque não adianta eu mostrar minhas estrias e minha barriga flácida na internet e falar que sinto orgulho, porque não, essa não sou eu. Aqui a maternidade é real, é sofrida, é dolorida e todas essas marcas que trouxeram meu filho ao mundo me fizeram amadurecer, ver as outras mulheres com olhos de coragem, mas ao mesmo tempo fez voltar aquela menina que se escondia porque não queria ser vista.
Adoeci. Perdi 15 quilos. Fiquei linda aos olhos de quem me via por fora, mas por dentro eu estava podre. Não conseguia me ver sem roupa. Os peitos que haviam murchado, a barriga que, mesmo magra, não era apresentável. Mas sempre, por todo o tempo, tive um companheiro ao meu lado que me amou e me desejou independente de como eu estivesse.
Veio a segunda gravidez, eu ainda magra, ganhei apenas 9 quilos que perdi nos primeiros quinze dias. Mas durante minha cesárea houve uma complicação e uma hemorragia muito grave, na qual tive que ser fechada as pressas. E aí junto com o puerpério veio uma forte depressão que, hoje, eu consigo ver que foi a responsável por eu ter saído dos trilhos. Engordei 16 quilos. Não comia nada do que sempre comi, só queria carboidratos e doces para suprir a minha insatisfação com o meu reflexo no espelho. Fui em vários psiquiatras e todos me passavam a mesma medicação, alguns achavam que poderia ser um princípio de depressão pós parto, mas não era. Eu sabia de todo meu histórico e me conheço muito bem para saber que só funciono estando tudo na mais perfeita organização. Uma mãe, vendo minha insatisfação com a vida, me recomendou ajuda e eu procurei. Mais um psiquiatra. Medicação ajustada de acordo com a necessidade do meu corpo. 1 ano sem álcool. Não me importava, só precisava ser uma pessoa melhor para meus filhos e meu companheiro.
Há três meses decidi mudar, decidi voltar a me sentir mais bonita, a me amar mais. Essa foi a motivação. Eu precisava estar saudável e me sentindo melhor para que meu lar fluísse e estou correndo atrás. Venho perdendo o peso que adquiri no pós parto, venho me encontrando aos poucos. Me arrumando nas madrugadas, aprendendo a fazer o que eu não sabia (unha, sobrancelha, depilação, ...) para que eu me sinta melhor. A alimentação é só aquela velha história sobre comer de três em três horas, tomar muita água e evitar entupir de besteiras. Nada de nutricionista ou personal, só seguindo os instintos naturais para manter uma boa saúde.
Continuo acreditando na beleza natural e que quem precisa mudar isso sou eu, tá? Mas confesso: biquini só depois de uma abdominoplastia e um silicone, sem isso vou morrer de burca.



ps: queria uma clínica de cirurgia plástica pra me patrocinar. Ia resolver minha vida. -brinks!

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