20 agosto, 2013

A segunda visão do parto

Quatro anos após o nascimento do João tenho a certeza que sofri violência obstétrica. Nesses quatro anos não engoli o fato de ter que passar por uma cesárea sozinha porque só o pai poderia estar na sala de parto, sempre ficou a dúvida: e mães solteiras? São obrigadas a ter seus filhos sozinhas? Durante esses tempo eu pesquisei e me informei e montando cena por cena vi o quanto o hospital me desrespeitou (e deixo claro que não foi somente no momento do parto!). Um hospital mantido por funcionários do Governo Estadual de Minas Gerais que trata suas gestantes como doentes, sem nenhum tipo de apoio e como se estivesse ali para fazer um favor para cada mãe, única em suas dores e sentimentos, sem o mínimo de preparo para lidar com as inseguranças do ser humano.
Eu, mãe aos 19 anos, cheguei ao hospital com contrações a cada 15 minutos, me pediram para entrar, fizeram o exame de toque e me falaram pra ficar caminhando no hospital para dilatar. Não, não me explicaram o porque disso. E quando questionado a resposta: só assim seu filho vai nascer, é isso que você quer? Andei d e um lado para o outro de 23h até as 2h. Não dilatei e voltei para a casa com um retorno agendado para o dia seguinte. No sábado, 06/08/2009, meu tampão havia saído e a cena se repetiu, andar de um lado pro outro e nada. Tudo o que eu sabia sobre tampões e trabalho de parto foi passado pelo meu médico do pré natal e pesquisado por conta própria, na dúvida se o bebê nasceria ou não ainda não tinha procurado pelo médico que tinha feito o meu pre natal. Domingo de manhã, após passar a noite com contrações a cada 8 minutos voltei ao hospital onde me deram buscopan na veia e ma liberaram sem examinar. Aí todos pensam: marina, você foi tanto assim ao hospital? Fui! Já estava na 41ª semana, o hospital do lado da minha casa e não tinha noção do que poderia estar acontecendo e a única função de quem estava me atendendo era me explicar. Se o meu  pensamento estiver errado, favor me corrigir. Na segunda feira, 08 de junho de 2009, fiz uma consulta com o médico plantonista pra saber a quantas andava o meu TP de onde saí chorando. Desespero? Sim, não sabia o que estava acontecendo meu meu filho, comigo e o que poderia ser, mas a informação não veio. A única coisa que tive foi um pedido de ultrassom e um recado que eu deveria voltar lá se algo estivesse errado. E voltei, andei e esperei. O meu filho estava com 3,850Kg e 52cm, me disseram que era grande de mais para uma mãe de 64kg e 1,62m e se eu quisesse poderia continuar tentando o parto normal. Fizeram a tricotomia sem nem me perguntar, só mandaram eu deitar e abrir as pernas, depois disso uma lavagem intestinal, onde eu me senti invadida de forma bruta e desrespeitada. Esperei mais, quando às 19h24 com contrações a cada 5 minutos vieram e estouraram a minha bolsa, uma hora depois não havia tido evolução fizeram a minha cesárea porque meu bebê não poderia ficar sem líquido. Minha mãe, que até então me acompanhava, foi proibida de assistir meu parto porque só os pais podem assistir. Em momento algum perguntaram se havia um pai, um namorado ou um marido. Sim, ele existia, mas estava há quilômetros de distância a caminho para conhecer seu filho. E a melhor escolha para eles, os médicos, foi fazer logo minha cesárea sozinha e não ter que me aguentar mais naquela espera. Durante a anestesia as contrações iam e voltavam e o anestesista me mandava com toda rispidez do mundo ficar quieta porque eu o estava atrasando. Me mostraram meu filho três minutos após o nascimento, depois de limpo e examinado e o levaram de mim. Só voltei a vê-lo depois de costurada a caminho do quarto. 
Quatro anos depois, na sala de espera daquele mesmo sétimo andar, vejo uma mãe reclamando que sua filha estava passando por uma cesárea e que ela não pode a acompanhar porque só o pai poderia e, nesse caso, o pai não a ajudou durante a gestação e não iria assumir o filho. 
Hoje, depois de tanto ler e pesquisar sobre as formas de parto, vejo que eu não quero que isso se repita na minha vida, quero o meu filho ao meu lado e ao lado do irmão e esse é um direito nosso. Hospital é um lugar pra pessoas doentes, certo? Por que uma grávida saudável, que teve uma gravidez tranquila, precisa ir para um hospital parir? Os médicos são treinados e ensinados a lidar com doenças e a gestação nada mais é que um processo natural do corpo, onde a mulher é capaz de gerar, parir e alimentar sua cria. Eles ganham mais com cesáreas, trabalham menos e "resolvem logo o problema". Pra que esperar um trabalho de parto longo? Mais fácil fazer uma cirurgia logo. Mitos como circular de cordão, bebê gigante, parto seco, falta de dilatação nos rodeiam e a falta de opção e conhecimento faz com que tantas mulheres optem por uma cesárea agendada. 
Agora engoli, entendi o que passei e me recuso a assistir uma cesárea desnecessária em mim novamente, me recuso a ser separada do meu filho saudável ao nascer, me recuso a não ser dona do meu corpo e das minhas escolhas. Valeu a pena passar por tudo aquilo e passaria de novo para ter o João, mas não deveria ter acontecido daquela maneira. Hoje eu digo: vai ser diferente, porque eu quero e sei que pode ser. João vai renascer com o irmão e eu irei me sentir dona do meu corpo e das minhas escolhas. 

8 comentários:

  1. Acredito que há coisas q precisam acontecer pra possamos evoluir. Eu, q até a bem pouco tempo me contentava por nao ter tido uma cesárea, tenho a consciência hoje de q tudo deveria ter sido bem diferente. Acho q, aos poucos, a gente vai tomar conciencia de novo de como é ser mulher e vamos guiar tb as próximas gerações para q absurdos assim deixem de ser a regra!

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    1. Exato, Sá. E fico feliz de encontrar o apoio em você, amiga!

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  2. Ainda não encontrei uma justificativa contrária ao parto que tive, pois Sophia ficou sentada toda a gravidez, não "encaixou".
    Apesar de hoje ser muito bem informada sobre as opções e sobre como deve ser o parto em si acho que minha médica foi mesmo uma "mãe" comigo. Tive quem eu quis na sala de parto comigo, peguei e vi minha filha quando pedi, além de ter ficado no mesmo quarto todo o tempo.
    Mas eu devia ter feito muito mais perguntas antes, só que a gente não imagina como vai ser e o que perguntar. Tudo serve como experiência. bjos e mais sorte na próxima. Também pode contar comigo para o que eu puder ajudar!

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  3. Espero que você consiga realizar seu desejo nessa segunda gravidez.
    A respeito do seu relato, acho que a via de parto tanto fez. O que demonstra é pouco caso e indiferenca por parte dos profissionais que te atenderam.

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    1. Sim, a via de parto tanto faz. Mas respeito sempre deve existir <3

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  4. Tive a minha filha, através de uma cesária eletiva, há sete meses. Eu pouco sei sobre o assunto, mas também acredito que sofri violência obstétrica - não pela eletividade da cesária, que era, sim, necessária, pois eu tinha 2 placentas (uma na parede anterior, outra na parede posterior do útero), sendo ambas baixas. Fatos: fui informada sobre a gravidade do meu caso já no centro cirúrgico (sendo que a GO sempre desprezou meus sangramentos durante a gestação, fazendo-me pensar que era algo super tranquilo e normal); minutos antes da anestesia, aventou-se a hipótese de retirada do útero, caso a hemorragia não fosse contida, já que abririam a placenta para minha filha passar por dentro dela para nascer; tive minha filha nos braços somente após alguns minutos do nascimento, e, ainda assim, por alguns segundos, pois ela estava engasgadinha e simplesmente a levaram pra UTI (sim, UTI, sem dar satisfação de motivos), de onde voltou umas 3h depois, quando eu já estava no quarto. Detalhe: sem mamar! Eu, que a gestação inteira, imaginei que fosse amamentar minha filha assim que ela nascesse...quanta decepção! Não tive ajuda nenhuma das enfermeiras para amamentar, embora pedisse o tempo todo. Na segunda noite, preferiram me convencer a dar 30ml de NAN pra minha filha, no copinho, do que me ajudarem na amamentação... Enfim, quero ter outro filho, mas, DEFINITIVAMENTE, não quero que tudo isso se repita. Não volto a frequentar o consultório dessa GO e, certamente, não tenho filhos mais no mesmo hospital.

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  5. Eu tive parto normal no primeiro filho, mas com tanto quanto vocês para evoluir no segundo parto. Parto normal com uma costela quebrada e o bebê foi mamar 24 horas após o parto, porque pasmem, no hospital onde Arthur nasceu não tem problema o bebê ficar tanto tempo sem mamar, " ele nasce com reservas", segundo as enfermeiras. Grávida de novo, desejo um parto bem diferente pra mim e pra vocês. Beijos

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