08 novembro, 2013

Cumplicidade | por Amanda Noronha

Meus pais nunca conversaram sobre sexo comigo, tudo que eu sei, aprendi assistindo aos canais eróticos escondido deles. Eu não via muita maldade em nada. Muito menos em falar sobre isso com meus coleguinhas. 
Aos 12 anos, eu nem tinha beijado na boca, ouvi meus amigos dando uma super importância pra peitos, coisa que eu não conseguia entender. Então eu simplesmente disse "Vocês querem ver peitos? Então tá!" e mostrei o meu. Isso virou uma loucura na escola, no outro dia todo mundo estava comentando. Eu ainda não entendia o porque meus peitos tinham virado toda aquela confusão. Ninguém veio me orientar, ninguém chamou meus pais pra conversar. Por outro lado, chamaram os pais das minhas amigas, orientando que elas mudassem de sala pois eu não era boa influência. Nada disso me incomodou. Todos os meninos falavam sobre sexo, masturbação e eu também falava. A diferença é que no meu caso gerou um grande apelido: PUTA! A escola toda começou a me chamar assim... na sala, nos corredores, a minha sorte é que na época não tinha redes sociais. 
Foi um ano assim, só que no ano seguinte a situação piorou. Os meninos começaram a fazer "montinho" em mim e enfiavam a mão dentro do meu uniforme. Eu tinha 13 anos, a maioria dos meninos também. Aquilo era igual a morte. Fui inúmeras vezes na diretora e ela sempre dizia que a culpa era minha, que eu que deixava. Os "montinhos" aconteciam dentro de sala, na frente dos professores, nenhum deles nunca tentou evitar, nunca pediram pra parar. Como que eu contava isso pros meus pais? Se a diretora disse que a culpa era minha, meus pais também falariam isso, certo? 
Eu aguentei isso por mais um ano, até conseguir que meus pais deixassem eu sair do colégio. Eu era louca pra sumir do mundo, mudar de nome, de país, de rosto. Me sentia um lixo, pois acreditava que eu era realmente culpada por tudo isso.
Só percebi que a culpa não era minha depois de muitos anos.
O que eu tiro disso é a seguinte conclusão: conversem com os filhos sobre sexualidade, principalmente meninas, pois a informação chega mais fácil nos meninos. A orientação é fundamental. Ficamos tentando evitar falar sobre "assunto de adulto", querendo preservar a infância e fica faltando orientação. E quando eu falo de conversar sobre sexualidade, não digo apenas sobre explicar como os filhos são feitos e como evitar doenças, é sobre tudo, tudo mesmo! Observem o comportamento deles. Se estiverem evitando ir a escola, tristes e desanimados, procurem saber o motivo. É muito difícil contar para os pais sobre as agressões. E muitas vezes, quase todas, a escola não ajuda. Mantenham a amizade com os filhos, assim fica mais fácil para compartilhar assuntos pessoais. 
Com os aplicativos de smartphones, isso tem acontecido cada vez mais, a frequência tem  aumentado muito. A maioria dos pais não sabem que isso está acontecendo, mas fotos de crianças nuas circulam nas redes.
Tudo isso ocorreu há quase 10 anos. Hoje não tenho nenhum tipo de trauma ou raiva do que aconteceu. A unica coisa que eu considero ser uma consequência disso é um excesso de vaidade. Tenho duas irmãs pequenas e tenho muito medo de acontecer algo com elas, converso muito com meu pai sobre isso, sobre os cuidados a serem tomados com essas redes sociais, porque está muito perigoso e cada vez mais precoce. Quando a criança é nova, a capacidade de falar "não" ainda é baixa. Se uma pessoa que a criança confia pede pra ela mandar uma foto nua, normalmente ela manda, pois acha que se negar, ele não vai mais gostar dela. Temos que tomar muito cuidado com os adultos conhecidos e desconhecidos, não sabemos de onde vem o perigo.


Nesse final de semana acontece em Belo Horizonte o I Workshop de Prevenção e Combate à Pedofilia, no Colégio Loyola que fica na Av. Do Contorno, 7919 Belo Horizonte.

Todas as informações AQUI.

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