15 dezembro, 2013

EM TERRA ONDE A MAIORIA É MARROM COMO (sobre)VIVER SENDO PRETO?


Há algum tempo atrás, fazendo um relatório para um paciente que, aliás, é professor de literatura, este comentou: “você deveria ser escritora” (SIC). Comentando o fato com um dos meus genros, este disse: “quando você escrever quero ser o primeiro a ler”.

Estas considerações são para dizer que, há muito tempo venho gestando a vontade de  escrever - até tenho alguns projetos em mente, já coloquei manuscritos no papel, mas sempre ficou por aí.

Todavia, em uma conversa com minha filha hoje pela manha, novamente a fala: “mãe escreve isto.” Associada aos envolvimentos sócio/político/raciais em que a mesma de repente se viu envolvida, há duas semanas atrás, acionou novamente o gatilho da escrita. 

Então, aí vai!

Tudo começou no dia 21 de novembro...

Minha netinha que está no maternalzinho de um colegio classe média, estimulada pelos pais, levou, para atividades em classe, um pôster do Zumbi de Palmares, para que a professora introduzisse com os coleguinhas a questão das comemorações do “Dia da Consciencia Negra”. 

Vale ressaltar que o casal é inter racial e o pai, além de haver se casado com uma negra é um estudioso desta cultura e também capoeirista. Minha neta herdou a cor do pai. 

Sobre o fato da criança haver levado o tal pôster, esclareço que é de praxe nesta escola, as crianças levarem objetos, desenhos, ou qualquer material ligado às suas vivências ou comemorações sociais. Para surpresa da mãe, que acompanhava a entrega do pôster, o que se viu foi uma professora surpreendida e sem o que dizer ante do rosto de Zumbi. 

Frente à insistência da criança, meio relutante a mestra recebeu o papel, porém sem nenhum comentário o guardou junto a seus pertences. Do lado de fora a perplexidade também se instalou, a mãe se viu surpresa e sem saber o que dizer!

Se alguma câmera houvesse registrado a situação, ver-se-ia duas pessoas com emoções semelhantes diante da mesma situação: surpresa e apreensão. O que as distinguia eram os sentimentos! Os da professora, não posso dizer, mas os da mãe foram um misto de tristeza, decepção e indignação. Afetos que desencadearam uma série de eventos registrados nas mídias sociais que hoje em dia aceleram a comunicação.  De positivo nesta estória foram as manifestações de apoio recebidas pelos pais, a abertura de um canal com a escola que reconheceu a necessidade de abrir a discussão sobre a questão preconceitual latente e a reflexão dos pais para a aprofundar na educação da filha o legado e importância da cultura negra no Brasil.  

Voltando ao início do texto fiquei me perguntando porque este fato, guardados os meus sentimentos de mãe e avó, estariam me levando a escrever?

A resposta talvez já estivesse aqui, na ponta da língua. Mas, para prosseguir, quero retomar a minha própria história e a tessitura que a enlaça envolvendo as questões do preconceito racial no Brasil. Segundo Fazzi (2004) (1): “A discussão da questão racial  no Brasil  sempre (grifo meu) produziu uma tensão entre duas interpretações opostas: uma que afirma e valoriza a convivência harmoniosa entre brancos e não-brancos, expressa na ausência de conflito racial violento, e outra que demonstra  a existência do preconceito racial. Os argumentos favoráveis à primeira interpretação enfatizam a ausência de segregação racial e o processo de  miscigenação e de sincretismo  ocorrido na sociedade brasileira. Os argumentos favoráveis à segunda interpretação ressaltam a persistente desigualdade racial da sociedade brasileira. Dados quantitativos inequívocos sugerem a atuação de mecanismos sociais discriminatorios, embora sutis”.

Utilizei os argumentos desta autora como abertura para a reflexão sobre as consequências da vivência precoce dos problemas gerados pela segregação na qual me incluo como sujeito por ter vivido, aos 7 anos de idade, na escola, uma situação que me fez entender  que existem pessoas negras e pessoas brancas - e que uns e outros podem não tolerar esta diferença.

Antes de me ater a este fato, penso ser necessário esclarecer sobre minha origem e aspectos ligados à miscigenção e lugar social. A árvore genealógica da minha família a partir das referências que conheço é assim: 
  • Avós maternos: 
  • Avô negro, filho de português com escrava. 
  • Avó branca, descendente de árabes. 
  • Avós paternos: 
  • Avô branco, imigrante europeu vindo para o Brasil nos anos 40; na minha terra era conhecido por “o suíço”. 
  • Avó negra. 

Dos avós paternos não tenho mais dados, pois meu convívio ao longo da vida foi com a família materna. Sobre estes, posso dizer que tiveram uma prole de 21 filhos entre pretos, brancos e mulatos e, os “casos de família” já abordavam as dificuldades com a miscigenação e até mesmo preconceito entre os próprios irmãos. Apelidos, brincadeiras, preferências serviriam para ilustrar a questão. Entretanto pelo fato de que, no início do século 20 (estou falando do período que varia aproximadamente entre 1910 a 1920) meu avô ser um homem de posses (materialmente falando) o fato de ser negro não interferiu na inserção social da família.  Na minha terra natal, era dono de um casarão colonial, bem localizado e que além de ser a residência da família era também um hotel. Por estar próximo à Estação Ferroviária tinha boa clientela e, nesta Estação, meu avô tinha também o que em linguagem contemporânea seria uma lanchonete. Além de comerciante era também “enfermeiro prático” - na época não existia a profissão regulamentada do enfermeiro – trabalhando num hospital de neuro-psiquiatria infantil local. Estes fatos geravam algumas consequências positivas para os filhos: todos puderam estudar, um tio – que inclusive tinha a pele negra – formou-se em “engenharia elétrica” nos anos 40. Sobre as filhas, quase todas eram “normalistas”, equivalente atual ao curso de Magistério. Os negros desta família não trabalhavam para os brancos e sim para o próprio pai. Uma das tias além das letras tinha o dom especial para o ensino da Matematica, tornando-se reconhecida na sociedade local como: “fulana de tal” a professora de Matemática. Um dos seus ex-alunos que mais tarde formou-se em Engenharia Civil, chegou a ser Ministro dos Transportes nos anos da ditadura militar no Brasil.

Foi neste núcleo sócio-familiar que nasci.

Na infância e já residindo em Belo Horizonte, por influência de uma das tias normalistas, tive contato com a mais ampla bagagem de livros e revistinhas de literatura infantil, cuja maioria ainda guardo, e pretendo repassar aos meus netos. Boa e imortal literatura! O estímulo das letras e a convivência com o afeto mesclado com boa educação cultural fez com que a criança (eu) aos 6 anos de idade já soubesse juntar as sílabas e formar “letrinhas”. Esta alfabetização precoce acelerou a alfabetização formal e ao entrar na “escola primária” (1963) sabia ler.

A família, apesar de mestiça, não residia na periferia, como a maioria dos semelhantes raciais da época. Pelo contrário, moravam em bairro que hoje seria  classe média, apesar do sustento familiar vir de “empregos públicos”. Neste bairro havia dois Grupos Escolares, sendo que num deles estudavam em sua maioria, crianças brancas e no outro o inverso, o maior número das crianças eram negras e pobres. Uma “brincadeira infantil” da época, sabe-se lá de onde surgiu, ensinava às crianças da primeira escola  a cantar um jingle mais ou menos assim: “comi pepino, rotei (leia-se: arrotei) cebola, no grupo X (nome do grupo escolar) só dá crioula”. 

O curioso é que eu também cantava esta musiquinha, sem nem saber que de mim mesma zombava. Mas, como disse, logo a própria vida me ensinou o que é ser “crioula” numa sociedade racista. Fazia parte das comemorações da escola, quando as crianças aprendiam a ler, organizar um teatrinho para apresentar aos pais o resultado da alfebetização. Cabia às professoras de cada classe da primeira série escolher uma criança que representaria a professora e as demais crianças permaneceriam na posição de "alunos”, e os atores encenariam uma aula de leitura.  Para  minha surpresa e também da minha familia a escolhida para ser “a professora” fui eu. Precedia a esta  apresentação dar conhecimento aos pais para que preparassem as crianças para o evento, podendo inclusive convidar outros familiares. Obviamente todos os pais quiseram saber quem seria “a professora”. Quando se espalhou o fato de que a “professora” era uma criança negra  houve protesto daqueles que não admitiam esta situação. Para não estender o relato o fato foi que, minha querida professora, que agora homenageio publicamente: Dona Alba Nagib, apesar de tudo e de todos não abriu mão de que eu fosse “a professora”. E assim, esta foi a minha primeira e praticamente única apresentacao em público. Digo praticamente única porque os afetos conturbados geraram na criança os primeiros problemas com a questão racial e consequência para os anos que se seguiram como por exemplo, certa fobia social e pavor de exposição pública quando se trata de situações de demonstrar conhecimento – palestras, congressos, etc. Isto porque, voltando aquele ano de 1963, verdade mesmo, não tinha noção de que “ser negro” era sinônimo de “ser algo ruim”. Sinônimo de que “alguma coisa” pode receber vários nomes e significações. Sinônimo de algo que pode atingir e amedrontar crianças. Sendo filha única e criada em meio de muitos tios e tias, alguns deles nem consanguíneos, onde as misturas das cores negros, brancos e marrons era a constante e crescer num ambiente familiar em que era comum escutar música clássica nos almoços de domingo e, bonitinha que era, tinha outros nomes próprios como: “olhos de jabuticaba...”, “cor de lombo assado...”  etc e tal, tive que, da noite para o dia, aprender a lidar com uma outra verdade, desconhecida até então. 

Os fatos relatados poderiam ser rotulados como falha da minha família? Posso dizer que não! Nasci no início dos anos 50 e nas condições sócio/culturais que já descrevi. Sobre os   os negros, além das histórias de Monteiro Lobato, do qual aliás tenho quase toda a coleção, sabia que eram os escravos que tinham vindo para para o Brasil para trabalhar para os fazendeiros brancos. Sabia também que sofreram muito até que uma princesa branca os libertou. (Será?) Mas eu? Negra?  “O que é isto, meu Deus?”, deve ter sido a pergunta da criança na época. Só sei dizer que, a estas perguntas e tantas outras que se seguiram, precocemente a propria vida me ensinou responder. 

Este texto poderia ser muito mais extenso, pois a partir deste episódio, paradigmático, minha vida mudou. De certa forma, nos “os olhos de jabuticaba” formou-se um “ponto de interrogação”; a “cor de lombo assado” passou a ser apenas um prato saboroso. Entendi também que poderia continuar a conviver com os brancos, assim foi a minha vida inteira e ainda é até hoje. Mas descobri que entre eu e muitos deles havia uma “barreira invisível” dificil de ultrapassar. Descobri também que, se quisesse ter algum lugar social respeitável teria que ser senão a melhor, estar dentre os melhores em tudo o que fizesse. E, mesmo assim, teria que dar muito duro senão, ai de mim. Entendi também que para abrir algumas portas, precisaria de um intercessor branco (lembram-se da professora?) porque  “País das Maravilhas”, para os negros é mera ficção. Consegui! E de coração agradeço a todos os brancos que acreditaram em minha inteligência e determinação e me  abriram portas. Não posso dizer o mesmo dos negros - aliás, nem casar com um negro consegui. Nunca se interessaram por mim. Entendi também que os tempos iam mudar, mas seria uma longa história e com sangrentas lutas. Da década de 60 lembro de muitas delas e todos os “movimentos dos negros” posteriores o que possibilitou a nós negros chegarmos ao século XXI com muitos avanços sociais e políticos. Temos, inclusive agora no Brasil além do dia comemorativo da libertaçao dos escravos o “Dia da Consciência Negra". Mas negros e brancos, convoco a todos vocês e me incluo também a continuar trabalhando para que o “Dia da Consciência Negra”, “Dia do Índio” , “Dia de ...” sei lá o que, seja algo mais além de uma data comemorativa e marcada em calendario. Oxalá seja um “Dia Único” em que a raça humana possa comemorar culturalmente o fato de  que só existe enquanto tal porque é sempre foi e sempre será resultado de uma grande, histórica, geográfica e secular miscigenação. 

Autor: Mãe anônima de uma participante do Grupo de Mães Pequenininhos

2 comentários:

  1. Que excelente, comovente e marcante texto!! Por favor continue a escrever, pois todos precisamos de suas sábias palavras. Sei q nao vou esquecê-las tao cedo! Parabéns!

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  2. Adorei o texto!! Sou branca, nascida e criada em BH. Tive uma coleguinha negra aos 5 anos no Pitágoras, 1 colega negro no ensino médio, 3 colegas negros em dois cursos de graduação distintos e nenhum negro na pós. É difícil delimitar o termo negro no Brasil, porque todos nós somos negros em alguma porcentagem. Desses colegas, a única que era negra de cor negra (dentro da definição do IBGE, sei lá!), era a coleguinha de 5 anos, sendo os outros miscigenados. É patético classificar as pessoas dessa forma, mas o importante que eu quero enfatizar é que em 35 anos de vida escolar-particular eu convivi com apenas 5 colegas negros. Isso de 1980 pra frente... se na minha geração foi um desafio para esses colegas ultrapassarem a barreira negro/classe social/estigma, imagino que na sua geração tenha sido uma verdadeira batalha. Você contrariou um padrão, fugindo de um papel que lhe era empurrado e conseguiu emergir dessa "matrix", desse pensamento de massa.

    Piso em ovos quando eu falo sobre o assunto porque tenho medo de ser interpretada como racista pelo simples fato de ser branca. É a dicotomia do racismo... um negro pode se auto-denominar negro, mas quando um branco usa a mesma palavra, significando exatamente a mesmíssima coisa, no mesmíssimo contexto, corre o risco de ser entendido como racista.

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