Para Francisco, nosso pequeno amor.
Filho,
Eu tenho medo do esquecimento e é por isso que escrevo. Tenho aversão à injustiças, ignorância e enganação, e é por isso que luto. Não acredito em vidas passadas e em destino, mas essa minha vontade de mudar o mundo vem de algum lugar que a ciência não explica. Seria índole? Não sei. É meu, minha vontade, meu jeito de querer que todas as pessoas sejam respeitadas e vivam de forma digna. Isso me pertence e espero carregar esse sentimento que me motiva por todos os dias de minha vida. É isso que quero passar pra você e para seu irmão.
A história do seu nascimento não é apenas um relato de parto, é o relato de uma caminhada. Um caminho longo, cheio de pedras e flores, no qual eu não conhecia o destino, mas seguimos (os quatro) firmes e iluminando essa estrada com conhecimento, amor e com o carinho dos que nos cercaram.
A vida é feita de momentos, esses se tornarão lembranças e tecerão nossos dias com cheiros, sons e as imagens de cada segundo vivido. Desse dia ficou o cheiro da lavanda, do maracujá, o som dos gritos, das risadas, o toque quente daquelas oito mãos, o vento que vinha daquele leque e me fortalecia, os olhares, as vozes calmas e o céu azul.
Durante 41 semanas nós lemos, estudamos, assistimos filmes, palestras, documentários, participamos de rodas de discussões e grupos virtuais. Nos informamos o máximo sobre as formas de nascer, a fisiologia do parto, o corpo da mulher e do bebê. Quando falo no plural eu mostro que foi um trabalho em família, não foi uma busca sozinha, em momento algum eu estive sozinha nessa caminhada, tive muitas mãos ao meu dispor e muitos ombros pra me apoiar. O primeiro passo dessa caminhada foi quando assistimos O Renascimento do Parto e ficou claro tudo o que havia acontecido no nascimento do João, tudo o que queríamos mudar e estabelecemos nossas metas. A meta principal era: fazer com que você nascesse no seu tempo com todo respeito e amor que você merece.
As contrações começaram na quinta-feira a noite, com 41 semanas e 4 dias, 15 em 15 minutos durante 4 horas, depois espaçaram e perderam o ritmo, dormi no chão do quarto como havia fazendo durante as últimas semanas devido ao calor, mas aquela noite estava agradável, da janela vinha uma brisa leve e o céu estava nublado. Dormi bem, o que não acontecia há tempos, acordei com o João se aconchegando do meu lado e com as contrações voltando, mas continuei deitada ao lado dele naquele ninho no chão até 11 horas da manhã, aproveitando o clima fresco e os últimos momentos de filho único do João, eu sentia que você estava pra chegar. Ao meio dia as contrações estavam ritmadas, 20 em 20 minutos, almocei com João e seu pai o levou pra escola. Eu estava invadida por um sono fora do comum, consegui dormir em intervalo de 20 minutos durante toda a tarde, quando Samuel e João chegaram em casa os intervalos já estava de 10 em 10 minutos, João queria brincar e assim foi feito, brincamos de lego até que as contações começaram a ficar mais intensas e de 5 em 5 minutos. Eu lembrava da orientação da Raquel, enfermeira obstetra que nos acompanhou, que quando ficasse de 5 em 5 minutos eu deveria tomar um banho longo e ficar deitada do lado esquerdo por uma hora, assim o fiz. No banho a água quente aliviava a dor durante as contrações e no intervalo me relaxava, rebolei, cantei e dancei. Você estava dando as caras e a alegria tomava conta do meu corpo. Fiquei deitada de lado durante mais de uma hora e as contrações continuavam ritmadas. Foi quando mandei uma mensagem pra Raquel e ela sugeriu que fossêmos pra maternidade. Durante todo o dia eu estive trocando mensagens com a Catarina, quando contei pra ela que iríamos pra maternidade ela ofereceu nos levar e em menos de 10 minutos já estava na porta da nossa casa, no rádio tocava um funk aleatório, o que fez o caminho ser divertido. Engraçado lembrar que durante a gestação a Catarina havia sonhado várias vezes que era ela quem me levava pra maternidade e que você nascia dentro do carro.
O caminho pro Sofia nunca tinha sido tão longo, as contrações continuavam, as risadas continuavam e o caminho continuava. Nos perdemos em um bairro desconhecido e às 23h chegamos ao Centro de Parto Natural (CPN).
Na CPN tivemos que aguardar a enfermeira que me foi recomendada pela Raquel, a Monique, pois estava atendendo a um parto no quarto ao lado, e enquanto isso ficamos conversando e trocando mensagens com a Kalu, que havia atendido ao parto de uma amiga no dia anterior e estava descansando até decidirmos o que iria acontecer. Rebolei na bola, caminhei 345 km por aqueles corredores, deitei, ri e conversei. João estava deitado na poltrona para acompanhantes jogando pokemon enquanto aguardavamos a avaliação da Monique e a decisão de qual quarto iria. Eu queria uma banheira disponível e a única do CPN estava ocupada naquele momento, na maternidade o João só poderia participar com autorização e era esta que estávamos aguardando, eu só subiria com o João, caso contrário ficaria na CPN sem banheira. Monique me avaliou, 4cm, contrações frequentes, ritmadas e bebê cefálico. A Kalu não poderia me acompanhar, estava exausta do parto do dia anterior, então um anjo chamado Helena viria ficar conosco. Durante a gestação frequentei os encontros do Ishtar e desde a primeira vez a doçura da Helena havia me chamado atenção, sabe quando o santo bate? Pois é! E foi ela quem estaria lá, com toda aquela doçura e paciência. A liberação pra subir já tinha saído, fomos para o quarto Dona Beija, no caminho as contrações (que já estavam de 2 em 2 minutos) nos fizeram parar várias vezes e eu sempre pensando: menos uma. Ao sair da casa de parto o céu estava estrelado e ventava frio, na recepção vi muitas mães esperando a chegada dos seus filhos e a cada minuto eu tinha a certeza de que logo estaria com você em meus braços.
O quarto estava quente, João dormiu assim que entramos e eu fui pro chuveiro. Foi bom, Catarina e Samuel conversavam e riam no quarto enquanto eu rebolava na bola, a água estava quente e a sensação de alívio era maravilhosa. Eu que nunca troco de roupa na frente de ninguém, nesse momento já estava no chuveiro com a porta aberta e completamente nua, a vergonha tinha ido embora pelo ralo.


Filho, eu tinha certeza que estava indo tudo muito bem, estava tudo tão leve e tranquilo, como eu havia sonhado e planejado. Eu não gosto de perder o controle, ficar fora de mim nunca me fez bem, porque depois fico remoendo as possibilidades e como teria sido se tivesse agido com a cabeça fria, isso foi um dos motivos de ter escrito claramente o meu plano de parto, pra caso algo saísse do controle todas as minhas escolhas estivessem documentadas.
As contrações continuavam bem, até que do nada alguma coisa mudou. Francisco, eu sabia que tinha algo errado. Seu irmão havia nascido de cesárea há 4 anos e 10 meses e esse lugar começou a doer, não era uma dor como as contrações, eu tento descrever e não encontro palavras de tão absurda era aquela dor, a sensação de que eu estava sendo rasgada de dentro pra fora naquele local, eu perdi o medo de gritar, eu perdi o medo da morte porque eu tinha a certeza absoluta de que nada poderia ser pior que aquela dor. E conheço meu corpo e sabia que algo não estava normal, aquele médico havia me cortado há 5 anos e estava fazendo isso novamente e tudo o que eu tinha trabalhado em cinco anos estava voltando à tona. Não lembro o momento exato em que a Helena chegou, mas lembro claramente de quando eu gritava de dor na banheira e ela me olhava nos olhos e repetia: Marina, está tudo bem, grita Marina, você está indo muito bem. Ah filho, eu não sabia a força que as mulheres tem, eu não sabia como esse apoio era bonito. Nós estávamos cercados de mulheres lindas, fortes e guerreiras. Helena iluminava a sala, Catarina me dava força e tudo aquilo parecia que eu estava em um ninho aquecida e protegida dos meus medos, porque aquela dor não passava e parecia que nunca ia passar. Eu chamava por minha mãe e era claro a falta que ela fez, um dia você vai entender o poder que o amor de mãe tem e espero que me queira do seu lado em todos os momentos da sua vida, assim como eu quero a sua avó.


Eu pedi anestesia, foi quando fizeram o segundo toque com meu consentimento e romperam a bolsa, 8cm de dilatação e um bebê transverso. A anestesia veio para que eu pudesse pensar por uma hora e ver a real situação, a equipe médica estava preocupada comigo, a tensão estava no ar e ainda assim respeitavam meu plano de parto. O dia estava tão lindo, filho, era naquele céu azul que eu focava quando as dores voltavam, eu queria que você conhecesse esse mundo paralelo em que vivemos, onde um céu azul é motivo de alegria pro dia todo. O João ainda dormia e eu sabia que continuaria dormindo por muito mais tempo e isso me deixava tranquila, porque sabia que ele estava confortável com a situação, mesmo deitadinho no ninho em que preparamos pra ele no chão do quarto. Seu pai sentado do lado da banheira me tranquilizava e me dava tanta força que eu achei que ele tinha sofrido uma abdução por aliens, aquele homem não era o Samuel, o Samuel naquela situação estaria tremendo, desmaiando ou com a boca tão branca que pareceria um homem de gesso, mas não, ele estava forte e confiante aguardando você. Eu amo tanto ele, filho, ele é uma pessoa tão boa, com um coração gigante e um exemplo pra vocês.

Kalu chegou e fez com que o ambiente ficasse ainda mais acolhedor, é tão bom viver cercada de anjos, Francisco, você terá o prazer de conviver com essas pessoas. A música tocava e ela veio massagear meus pés, enquanto Helena massageava minhas costas. As dores tinham voltado, a anestesista ao dar o reforço exagerou na dose e fez com que eu perdesse o movimento das pernas e isso me deixou nervosa, porque tudo o que eu queria nesse momento era ter o domínio do meu corpo. Ligaram ocitocina porque havia parado a progressão do parto e enquanto a ocitocina sintética corria nas minhas veias, a Kalu e a Helena massageavam tentando fazer com que eu voltasse a sentir minhas pernas. Catarina conversava comigo e ríamos muito, no quarto estava tocando a playlist do parto (que você pode ouvir aqui) quando um enfeirmeiro querido, o Cristovão, entra e comenta sobre o meu bom gosto musical. Vale a pena deixar claro o diálogo super apropriado para um trabalho de parto:
Cristóvão: Nossa, que bom gosto! As músicas estão ótimas!
Eu: Obrigada...
Catarina: Se fosse eu tava ferrada, no meu carro só toca música brega! Meu trabalho de parto só vai tocar Lepo Lepo e vai descendo na boquinha da garrafa, é na boca da garrafa...
Kalu: E se fosse a Helena também, só música de deusa...
- Segue a Helena cantando Roupa Nova e dançando, uma pena que não filmei!


Bom, a dor não passava, nesse momento já estavamos sendo acompanhados por uma médica que havia parido três crianças em casa, o que me deixava tranquila e me dava a certeza de que não cairia em uma cesárea desnecessária, mas estava escrito na testa dela que ela estava preocupada. A Adrinez chegou e, de todas as pessoas na sala, foi nela que senti mais certeza de que eu ia parir. Mudamos de posição para ver se evoluia, fiquei de quatro apoiada na cama enquanto conversava com ela, nunca esquecerei daquele olhar doce no momento em que eu não conseguia me concentrar, da calma e tranquilidade no momento em que eu mais precisei. Ela, Helena, Kalu, Catarina e seu pai... é, filho, as pessoas tem um coração enorme!

Desde que comecei a sentir aquela dor anormal (fdp, infernal e tudo mais que possa descrever) a equipe tinha ficado alerta e não nos deixavam em paz no quarto, a todo momento tinha alguém entrando para verificar a situação e nessa hora já estavam dois enfermeiros, anestesista, médica, duas doulas, um marido, um filho (que tinha acordado e não parava de falar de pokemón e eu tinha certeza que ia parir um pikachu!). A situação não havia evoluído, você estava transverso e a manobra não poderia ser feita porque eu queixava (leia-se: urrava) de dor na cirurgia anterior o que sugeria rotura uterina, a bolsa havia rompido, você não tinha descido, havia parada de progressão mesmo pós ocitocina, eu estava estagnada em 8cm há, pelo menos, 6 horas. Foi quando toda equipe entrou no quarto e decidimos: Cesárea.
Francisco, eu chorei. Chorei de tristeza por ter caminhado e não ter alcançado o topo da montanha, mas chorava de alegria por que teria você em meus braços. Chorei de alívio, chorei por ter tido paz, por terem te respeitado, por ter vivido tudo aquilo e não terem roubado o meu parto. Chorei por todo o respeito que tiveram com você. Aquela cesárea não me foi imposta, não me empurraram ela guela abaixo. Você precisava daquilo e eu também, era nossa hora.
Fui pro bloco cirúrgico e lembro de alguém reforçando “levem o plano de parto dela, tem as recomendações da cesárea!”, na hora que me "amarraram” avisaram que era só enquanto abriam minha barriga e que assim que o corte fosse feito soltariam minhas mãos, o ar condicionado desligado, falavam sobre partos e nascimentos suaves enquanto me preparavam, abaixaram o campo para que eu pudesse te ver chegar, chamaram seu pai e a Kalu para me fazer companhia e assistir aquele momento. Lembro claramente da médica, ao cortar minha barriga, comentar que poderia abrir meu útero com o dedo de tão fina que estava a cicatriz anterior. E foi assim que você veio ao mundo, filho, ao som de Reconhecimento e regado pelas lágrimas de alegria do seu pai. Você nasceu e veio imediatamente pro meu peito e foi ali que ficou durante muito tempo, você não foi esfregado, eu pude sentir seu cheirinho, você mamou muito e pouco chorou. Não te aspiraram, não te aplicaram nenhum colírio, você não saiu de perto de mim e do seu pai por nenhum segundo. Não dói nascer, filho, nascer é bonito, é doce.



E aquela caminhada que eu achava que havia me perdido, na verdade eu me encontrei. Nem sempre o destino é o que importa, pois é no caminho que nos construímos. Foi nesse caminho que me iluminei, encontrei pessoas com o coração maior que o mundo, cresci e amadureci junto com seu pai, eduquei seu irmão quanto a forma de nascer que todo ser humano merece. Foi nesse caminho que me encontrei e descobri que o destino certo é aquele em que se é moldado, em que se é feliz. Meu destino é você, meu amor. O destino mais bonito de nossas vidas.

Bem vindo meu novo ser
cercado de proteção
de tanto amor tanta paz
Dentro do meu coração.
Obrigada Catarina, Helena, Kalu, Raquel, Adrinez e toda equipe do Hospital Sofia Feldman que fizeram nossa história de amor ser doce e inesquecível.
Relato lindo e emocionante!!!
ResponderExcluirFoi muito bom ler esse relato, porque sonhamos, planejamento e desejamos que as coisas aconteçam de um jeito e às vezes somos surpreendidos. Mas o importante é transformar o que seria frustração em realização e você fez isso muito bem. Parabéns! Vou me inspirar e sonhar muito com o meu parto natural, mas vou me preparar para receber de braços abertos o que a vida me oferecer. 😙
ResponderExcluirCoisa mais linda esse relato! Muita saúde e amor pra essa família.
ResponderExcluirLindo, Marina! Emocionadíssima com seu relato! Felicidades à família! Continue a sua luta, pois vale a pena.
ResponderExcluirSimplesmente lindo, Marina, como você! Você construiu um belo caminho, trilhou uma estrada de amadurecimento e superação. Às vezes não há como compreender por que a vida nos reserva coisas diversas daquilo que planejamos, mas importa reconhecer a beleza daquilo que conquistamos e das experiências que tivemos. Agradeço por fazer parte dessa história cheia de amor, de uma família especial, abençoada com filhos maravilhosos. Beijos no coração.
ResponderExcluirMinha querida, que relato mais lindo! Que história mais linda! Orgulho da sua caminhada!
ResponderExcluirSoltei um: Que coisa mais linda! quando terminei de ler o seu relato. Maravilhoso! Parabéns pelo bebê lindo!
ResponderExcluirorgulho imenso da minha amiga querida, não é preciso dizer mais nada!!!
ResponderExcluirUm grande beijo!
Vc me fez chorar e querer essa história pra mim. Sem cesarea. Mas se tiver q ser q seja assim!
ResponderExcluirVc me fez chorar e querer essa história pra mim. Sem cesarea. Mas se tiver q ser q seja assim!
ResponderExcluirMarina, obrigada. Me vi no seu relato. Fiquei em trabalho de parto por mais de 30 horas, dilatei tudo inclusive minha alma, mas minha filha ficou transversa e eu comecei a sentir uma dor i suportável que rasgava meu quadril e minha perna esquerda. Fazia força na fase di expulsivo mas a dor era maior que as contratações e eu não conseguia mais me concentrar para parir. Aí as coperdendo o ritmo e o parto não evoluiu. Com muito pes
ResponderExcluirsR sehui para a cesarea. Foi completamente humanizada e finalmente tive minha Amelie nos braços mamando muito
Marina, foi o relato mais doce e forte que li. Delicado e profundo na mesma medida. Exalta amor e respeito. Que vontade de te conhecer e de te abraçar e ser abraçada por você. Muita felicidade.<3
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